domingo, 14 de agosto de 2011

Pai


Média aritmética entre avô e filho. Pai e filho que são um só. E são pessoas distintas. Pai e filho que carregam dores ao longo das eras. Pais que vão. Filhos que vem. E um dia após serem pais, às vezes só potência, também vão.

Vivemos todos num ponto de ônibus. E, muitas vezes, nem percebemos quem está ao nosso lado. Nem perguntamos o destino do outro. Nem, muitas vezes, sabemos o nosso próprio destino.

O amor que permite a vida. O ódio que congela nossas existências. Que vai envenenando nossos dias. Fazendo com que desejemos que a noite chegue logo. Para que possamos morrer afogados em um oceano de imagens oníricas onde a realidade fica finalmente presente.

Sinto saudades de meu pai. De um pai que tive. E também do que nunca tive. Do pai que amo. Do pai que odeio. Do pai que sou. E do pai que meu filho é. E meu neto vai ser. Pai e filho. Pai-filho. Filho-pai. Real e ideal dançando uma eterna valsa ao som das trombetas e clarins. Anunciando chegadas e partidas. De ônibus que vão e vem para todos os lugares. E cheios de vida partem deixando esse gosto de morte na boca. Essa sensação de vazio. Que, afinal, é a única condição para que uma vida plena pouse suavemente. E se instale meritosamente. E tenha a nossa permissão para tornar o inferno no paraíso celestial. Paraíso do qual saímos deliberadamente e, muitas vezes, perdemos o caminho de volta. Paraíso do qual diariamente nos expulsamos com espada de fogo na mão e asas poderosas.

Média aritmética entre avô e filho. Pai e filho que são um só. E são pessoas distintas? Pai e filho que carregam alegrias ao longo das eras. Pais que ficam. Filhos que ficam. E um dia após serem pais, nos trazem netos-pais-filhos. Sentidos e direções escolhidas pela vida a fora. Casamento psíquico que nem a morte separa. Viva a vida bem vivida de nossas existências infinitas!

Eu amo.